Dia de sentimentos fortes, das memórias de tragédias que, há poucos meses, entraram porta adentro de forma tão violenta, através de tantos diretos televisivos, interrompendo a pacatez do dia-a-dia com inusitada brutalidade, à reflexão sobre a árdua tarefa de devolver a vida a tão extensas e massacradas áreas. Dia que começou em tons de negro intenso para a caravana do 3º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road, com saída de Belmonte, via Covilhã, rumo à Estrela, ‘mãe das serras portuguesas’, para testemunhar a extensão da tragédia com marcas visíveis durante quilómetros a fio. E onde zelosos trabalhadores, equipados com camiões, gruas e retroescavadoras, tentavam apagar, debalde, as marcas de tão hediondo crime perpetrado contra a Natureza.

Palco de deprimente escuridão, de tristeza sublinhada pelo odor acre de terra queimada, que deixou cabisbaixos todos os mototuristas que participam no passeio organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal em périplo até terras algarvias sempre (ou maioritariamente…) por fora-de-estrada. Pelo caminho, lugar à esperança, com Campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés, deixando árvores autóctones em vários concelhos, em simbolismo que será materializado mais tarde, na altura própria para a plantação, com vários milhares de árvores. Pisos secos, com muita pedra solta que mereceram ‘respeito’ de todos, com passagem mais lenta em jeito de homenagem a todos os que, nesta região, perderam a vida para as chamas.

Tempo, também, de esperança, testemunhada pela presidente da Câmara Municipal de Góis, Maria de Lurdes Castanheira, que plantou um carvalho-negral e uma cerejeira-brava na Praça da República, considerando “a campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés, promovida pela Federação de Motociclismo de Portugal, um generoso contributo que merece ser enaltecido”. Para a autarca a iniciativa é tanto mais importante “porquanto sensibiliza a população, e em particular os Goienses, para a importância da reflorestação das nossas florestas com espécies autóctones. Um solidário e valioso gesto digno de ser replicado”, rematou aquando da plantação na companhia de elementos da Comissão de Mototurismo da FMP.

Emotivo também o testemunho de José Antunes Graça, vice-presidente da autarquia de Pedrogão Grande e vereador com o pelouro da Agricultura e Florestas, plantando um sobreiro e um carvalho-roble no mesmo local onde, há alguns anos, criou muito especial área de descanso. Espaço junto ao IC8 (saída Vila Facaia e Graça, na localidade de Adega) com vários cedros, tílias e outras árvores que, até aos incêndios deste verão, ofereceram refrescante sombra aos milhares de motociclistas e automobilistas que ali repunham energias. Outro dos concelhos massacrado pelo fogo foi o de Mação, com o sobreiro e o choupo-bravo entregue ao vice-presidente da edilidade, António Louro, destinados ao Jardim Municipal, onde terão companhia de outras espécies autóctones, plantadas, entre outros, pelo Primeiro-Ministro António Costa.

Passagens marcantes para todos os motociclistas e que marcou profundamente Ricardo Faria, um dos três açorianos que se deslocou ao continente para participar “num evento sem paralelo, onde a camaradagem, a condução em terra, e as paisagens funcionam como verdadeira terapia, ajudando a recarregar baterias”. Habituado ao verde intenso de São Miguel, sentiu “uma dor imensa ao ver estas paisagens calcinadas, uma autêntica vergonha a que urge por fim”. Vai voltar, garante, até “para ver com os próprios olhos a renovação destas florestas”. E, quem sabe, para repetir a visita ao Picoto da Melriça, o Centro Geodésico de Portugal Continental, marco de forte carga simbólica neste evento, de onde foi possível avistar longos quilómetros de serranias em redor comparando a alternância entre as verdes paisagens e as áreas queimadas.

Seguindo sempre por perto da ‘espinha dorsal’ do sistema rodoviário nacional, saída da estrada N2 rumo à ponte Filipina sobre o Zêzere, sem os engarrafamentos causados pelas mais de 1500 motos aquando da passagem do Portugal de Lés-a-Lés… por estrada. Deixando as Beiras para trás, rumou o heterogéneo pelotão internacional para as planícies alentejanas, passando pelas margens do lado da barragem de Montargil, através de estradões bem mais rápidos, com pistas de deliciosa condução por entre sobreiros, onde nem faltaram alguns bocados de areia para maior diversão. Caminhos prazenteiros em final de dia bem diferente da véspera, mais extenso e mais rolante, até Arraiolos. De onde parte amanhã, bem cedo, a última tirada da 3ª edição do Portugal de Lés-a-Lés com destino a Lagoa, cumprindo os últimos 300 quilómetros através da serra algarvia.

Campeões presentes…mas apenas para ‘curtir’

Marcam presença bem notória desde a primeira edição do Portugal de Lés-a-Lés Off-Road mas, apesar da indiscutível rapidez que valeu títulos nacionais e triunfos internacionais, inscrevem-se no evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal apenas “pelo prazer de estar com os amigos, para ‘curtir’ a condução em fora-de-estrada e passar uns dias em convívio com aqueles que gostam de motos”. António Oliveira, com dezenas de títulos em todas as especialidades com ‘pneus de tacos’, aproveita esta ocasião “para fazer algo que nem sempre é fácil noutras alturas: simplesmente andar de moto”. Desafiado “por amigos e clientes” voltou, pela 3.ª vez, a um “passeio que está longe de ser uma competição” para apreciar “caminhos e paisagens que era impossível enquanto corria”. Agora, com mais calma, vai dando dicas de como ultrapassar alguns obstáculos, da forma como abordar os trilhos em máxima segurança ou ajudando em pequenas intervenções mecânicas, próprias de quem ‘anda no monte’.

Em Boticas, no arranque do 3º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road o piloto de Belas encontrou o amigo e rival de longa (longuíssima…) data, Miguel Farrajota, com quem discutiu provas e títulos de motocrosse, supercrosse ou enduro. O algarvio, também já conhecedor dos atrativos de “um passeio através de algumas das mais bonitas paisagens de Portugal onde não falta uma pitada de aventura” garante que “não tem qualquer comparação com o que se passa no Nacional de Enduro ou no Rali Dakar. Aqui o cronómetro é deixado de lado e as paragens são muito mais frequentes, para conversar com os amigos, partilhar histórias e rir um bocado”. Ideias partilhadas pelo primeiro português a alinhar noParis-Dakar, António Lopes, como pelo “Africano” Bernardo Villar ou os consagrados Rodrigo Amaral e Pedro Belchior, caras mais conhecidas entre o grande pelotão de ‘anónimos’ entusiastas pela descoberta de Portugal de forma diferente, aventureira e bem divertida.

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3º Portugal de Lés-a-Lés Off-Road: Motociclistas dão o exemplo de Lés-a-Lés
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